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Notícias
10.10.2018
Já pobre, Nordeste vive “desastre ocupacional” e avanço da miséria


Fernando Haddad, o candidato do PT a presidente, teve 51% dos votos no Nordeste, única região que lhe deu vitória no primeiro turno. Nas redes sociais, não faltou ofensa aos nordestinos, caso do diretor de negócios de uma agência de publicidade paulista, José Boralli. “Nordeste vota em peso no PT. Depois vem pro Sul e Sudeste procurar emprego!”, escreveu ele no Instagram.

“Emprego” é justamente uma das razões para o triunfo petista no eleitorado mais pobre do País. A região vive um “verdadeiro desastre ocupacional”, de acordo com o economista Felipe de Holanda, conselheiro do Conselho Federal de Economia (Cofecon) e presidente do Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos do Maranhão (Imesc).

Esse “desastre ocupacional” num lugar já pobre fez a miséria crescer. No ano passado, a pobreza extrema bateu recorde em nove estados, dos quais quatro pertencem ao Nordeste (Maranhão, Bahia, Piauí e Sergipe), conforme cálculos de uma consultoria financeira paulista, a Tendências.

“As políticas de desenvolvimento, como os investimentos em infraestrutura, em capital humano e em pesquisa, desenvolvimento e inovação, precisam ser ainda mais intensificadas no Norte e no Nordeste”, diz uma carta aberta do Cofecon dirigida em 21 de setembro aos presidenciáveis.

Diante de tudo isso, o desempenho de Haddad no Nordeste não surpreende. Desde 2006, o eleitorado brasileiro mostra um certo padrão regional de voto para presidente. E esse padrão, no caso Nordeste, é uma opção pelo PT, devido às políticas públicas lulistas, segundo o livro “O Voto do Brasileiro”, do cientista político Alberto Carlos Almeida.

Ao abraçar o petismo, o Nordeste impediu a vitória em primeiro turno do presidenciável da extrema-direita, Jair Bolsonaro, do PSL. Do total 147 milhões de eleitores aptos a votar este ano, 39 milhões são nordestinos, ou seja, um de cada quatro mora na região.

O “desastre ocupacional” no Nordeste foi medido por Felipe de Holanda com base na PNAD, pesquisa periódica do IBGE. Do primeiro trimestre de 2015 ao primeiro de 2018, a região viu fechar 1,7 milhão de vagas, encolhimento de 7,6% no mercado de trabalho. O Brasil como um todo viu sumir 1,4 milhão de postos, retração de 1,6%.

Entre os motivos da devastação do mercado de trabalho no Nordeste, está o “esfacelamento” das obras públicas na região, como a paralisação da construção de refinarias da Petrobras e da ferrovia Transnordetina, entre outras, segundo Felipe de Holanda.

Quando a devastação começou, no início de 2015, o poder federal ainda estava com o PT, pois a presidente era Dilma Rousseff. Isso ajudar a entender uma descoberta de pesquisas internas do partido: havia eleitores pobres dispostos a votar em Lula, mesmo com ele condenado por corrupção, mas a anular o voto se o PT apresentasse qualquer outro candidato no lugar do ex-presidente.

A memória do período lulista, porém, parece ter falado mais alto para a maioria dos nordestinos no primeiro turno da eleição. E a política econômica do governo Michel Temer, oposta à da era Lula, ajudou, motivo de os presidenciáveis ligados ao Temer ou ao impeachment - Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB) e Marina Silva (Rede) – terem tido, juntos, menos de 10% dos votos válidos dos nordestinos.

O congelamento de gastos públicos por 20 anos, aprovado em 2016 por Temer no Congresso, é uma “excrescência”, pois impõe queda do gasto per capita em obras, saúde, educação, ciência, assistência, diz Holanda. Com menos dinheiro em circulação, a renda como um todo caiu na região.

Além disso, afirma ele, “está havendo forte redução do colchão social na região, por exemplo a ‘limpeza’ do cadastro do Bolsa Família e o reajuste do salário mínimo abaixo da inflação em 2018”.

“Não por acaso, registrou-se uma explosão da pobreza extrema no Nordeste, que concentra três em cada quatro pessoas que não conseguem auferir o ganho monetário necessário para adquirir a ração básica de sobrevivência”, diz o economista. “A correção do salário mínimo abaixo da inflação, em 2018, deverá agravar o quadro.”

De 2014 a 2017, a miséria, definida como uma renda domiciliar per capita mensal inferior a 85 reais, subiu de 3,2% para 4,8% no Brasil, nas contas da consultoria Tendências, conforme publicado no Valor nesta terça-feira 8. O maior impacto foi no Nordeste. Dos nove estados da região, quatro atingiram em 2017 os mais altos índices de pobreza extrema já registrados pela consultoria.

Registre-se que o Nordeste já é morada dos brasileiros mais pobres. A renda per capita nacional em 2017 foi de 1,2 mil mensais, segundo o IBGE. No Nordeste, foi de 808 reais, inferior ao valor do salário mínimo.

 

Fonte: Carta Capital

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